extinta
Eu nunca te contei, mas tenho uma cicatriz no tornozelo. Quando eu era criança a babá ficou com preguiça de me levar a escola e me colocou na garupa da bicicleta, eu nunca tinha andado numa, quanto mais sido colocada na garupa. Ela não me falou o que fazer com os pés, e eu decidi, sozinha, coloca-los no raio da bicicleta. Fiquei uma semana sem andar. Mamãe me contou que eu repetia sem parar que nunca mais queria subir numa bicicleta porque eu não queria ter que ficar sem andar de novo. Eu salvei uma foto sua e reparei que você também tem uma cicatriz, só que a sua é no braço. Queria te perguntar o que ocorreu, mas fiquei sem graça, com medo de te fazer reviver algum momento ruim da vida; reparei também na pinta que você tem no cantinho da boca e fiquei me perguntando se nosso filho a herdaria de você, acredita nisso? Pensei em ter um filho com você. Reparei nos cílios gigantes, no nariz fininho, nos beiços rosados, mas pequeninhos, reparei até nos dois risquinhos que você tem na bochecha redonda demais. Você estava rindo muito, e seus olhos estavam bem fechadinhos, mas não escondiam nem o brilho e nem o castanho que carregam. Eu fiquei me perguntando do que você estava rindo tanto, e se você já teria rido daquele jeito de alguma piada minha, ou da vez que estávamos trocando mensagens e eu não vi a valeta que tinha na calçada e enfiei o pé e todos que estavam perto ficaram me olhando, na hora eu te contei e você disse que daria tudo pra ver e que estava morrendo de rir. Será que era do mesmo jeito que na foto? Porque, confesso, eu cairia em outras milhares de valetas só pra ver o seu sorriso daquele jeito, de perto. Mas nesse meio tempo, em que eu reparava na sua foto e pensava na sua cicatriz, no seu sorriso exageradamente feliz e bonito, na sua pinta perto da boca, você resolveu ir. No dia que você disse que ia embora, eu sentei na varanda e fiquei reparando no céu, talvez as estrelas me ajudassem a encontrar o ponto em que errei, ou que erramos. Mas em meio aos pensamentos, me peguei comparando as estrelas com seus olhos. Percebi que ficar ali não iria me ajudar em nada, daí eu fui tentar levantar e não consegui. Gritei a mamãe e disse, em meio às lagrimas desesperadas, que não estava conseguindo ficar em pé. Ela me disse que era assim mesmo: “quando o amor vai embora, minha filha, ele nos quebra as pernas”. Eu fiquei chateada: ela devia ter me dito isso antes, eu avisei que não faria mais nada que pudesse me deixar sem andar. Mas ela disse que eu tinha que arriscar. Arrisquei, ne? Daí você foi embora e me quebrou as pernas.
Flagelas. (via extinta)